Antes de começar DOIS avisos:
- Eu NÃO sou crítica literária ou de cinema, só curto os dois.
- Este post contém SPOILERS, não do tipo que dizem o fim do filme, mas sim aqueles que te contam alguns detalhes da trama. Se não quiser saber, NÃO PROSSIGA.
Agora sim...
Hoje o Aleatoryedades inaugura uma nova seção, o Filme VS Livro. O nome já diz, a gente vai comparar livros que foram adaptados para o cinema com suas respectivas adaptações.
E eu não podia começar de forma melhor e talvez mais arriscada (o que tem de fã que vai chiar..), do que resenhando Jogos Vorazes.
Os Livros e eu
Descobri JV ano passado, meio tarde eu sei (saiu nos EUA em 2008!), afinal a propaganda do livro já estava estampando todos os ônibus do Rio de Janeiro e mesmo a adaptação para o cinema já estava certa (mea culpa, mea maxima culpa), olhei para a capa e peguei o livro e aí, como sempre me acontece, BAM, eu soube que queria muito aquilo (e podem chiar puristas, me dizendo que não se julga livro pela capa, coisa que eu bem sei, mas eu tenho essa psicose louca de pegar e sentir uma conexão, levá-los sem nem mesmo ler as orelhas, foi assim com o ótimo e perturbador "Além da escuridão", com o lindo, emocionante e favorito "Extremamente Alto e Incrivelmente Perto" e será assim com vários outros).
Fiquei com ele na cabeça, mas não pude levá-lo, até que um mês de muita pertubação depois eu ganhei o primeiro e li em dois dias, devorando e chorando e gostando muito do que estava na minha frente, ao mesmo tempo surpresa e irritada (só lendo pra saber).
A história é engenhosa e bem feita e segue a nova leva de distopias teendults ou YoungAdults (literatura que mira nos leitores de 14 aos 21 anos) que estão pipocando por aí como por exemplo a trilogia "Feios" (que poderia ter sido tãããããooo boa, mas que peca por um excesso irritante e repetitivo de expressões e temáticas infantilizadas, excesso esse que é o grande divisor de águas entre a literatura YA boa e a fraca), ela começa numa América do Norte destruída, uma nação agora chamada de Panem, que possui uma Capital poderosa (chamada somente de Capital) e seus 13 distritos mais ou menos pobres que a rodeiam, desempenhando papéis específicos de fornecimento (por exemplo Distrito 12 que lida somente com a mineração). Temos assim um vislumbre da história de Panem e sabemos também que 74 anos antes os Distritos levantaram-se e rebelaram-se contra a capital, numa guerra sem precedentes que terminou com a derrota dos rebeldes, a destruição do Distrito 13 e a criação dos Jogos Vorazes como forma de controle e lembrete do poderio da capital.
Jogos Vorazes: sadismo televisivo e formas de controle
Esse "lembrete" acontece todo ano quando cada distrito tem de ceder 2 jovens (chamados de tributos) de 12 a 18 anos, um menino e uma menina, para a capital (a chamada colheita), para que eles sejam jogados numa arena e lutem até a morte, numa luta que só um pode vencer e onde todo mundo está vendo, um reality show sangrento e sádico que deleita (uns) e aterroriza (outros). E tem mais, esse vencedor leva pro seu distrito uma soma considerável de recursos pelo próximo ano, o que aumenta a rivalidade dos distritos e mantém afastada as chances de uma revolta unificada, afinal todo mundo quer ganhar não só pra sobreviver mas para melhorar a vida dos que ama também.
A tal colheita é feita em forma de sorteio, todas as crianças tem seus nomes colocados (o número de vezes que seu nome é colocado aumenta conforme você fica mais velho e também se você pega cotas de comida extra para sua família, as chamadas tésseras) tudo isso devidamente televisionado para a nação inteira, com pompas e firulas, onde até mesmo os distritos mais pobres ganham suas exibições para serem lembrados do "evento".
São justamente os Jogos que transformam essa trilogia em algo realmente bom, algo que realmente merece ser lido. Numa mistura de crítica pesada à sociedade que cada vez mais consome reality shows (muitos sem nenhum propósito além de humilhar e sacanear publicamente alguém) e também num repúdio pungente à beligerante realidade humana, a autora nos joga na cara todo o luxo, sadismo e riqueza de uns às custas da dor, sofrimento e morte de outros.
A dinâmica é tão bem feita que fica difícil você não sentir um nó na garganta ao ler a descrição de distritos miseráveis, onde as pessoas pegam quantas tésseras possíveis para não morrer de fome e vêem seus filhos indo embora para morrer na frente de todo o país. Mérito total da autora.
Personagens: festa estranha com gente esquisita
Somos apresentados à Katniss Everdeen, garota de 16 anos que caça ilegalmente para alimentar sua família depois da morte do pai e que se voluntaria para os jogos quando sua irmã mais nova é sorteada. Ela usa arco e flecha para caçar e eleva essa arma tantas vezes subestimada ao um status de letalidade incrível.
É através de seus olhos que a história é contada, uma opção que às vezes se mostra um pouquinho ruim pela necessária encheção de linguiça infanto juvenil (com um excesso quase chatinho de dúvidas quanto ao amor, ou melhor, amores, todas bem pudicas).
É através de seus olhos que a história é contada, uma opção que às vezes se mostra um pouquinho ruim pela necessária encheção de linguiça infanto juvenil (com um excesso quase chatinho de dúvidas quanto ao amor, ou melhor, amores, todas bem pudicas).
Katniss é um alento. Uma menina forte, determinada, selvagem, doce e inteligente, ao mesmo tempo confusa e esclarecida, ela é uma personagem forte e bem estruturada, que desperta paixões em leitoras e leitores, calando a boca de quem diz que protagonistas femininas fortes e lutadoras não fazem sucesso. Ela tem sim dois interesses amorosos no livro, mas em nenhum momento ela é submissa ou omissa no papel de seu destino, muito pelo contrário, nos três livros ela se fortalece cada vez mais, se tornando muitas vezes até descontrolada, impetuosa. As personagens do círculo de Katniss também são ótimas, Gale com sua amargura e revolta, Haymitch o tutor que afoga seus horrores em sarcasmo e álcool, Peeta e sua surpreendente doçura e compaixão, até mesmo sua mãe e irmã são bem desenvolvidas, sempre nos mostrando como pessoas diferentes reagem à mesma realidade cruel.
Em contraponto o núcleo de personagens da capital é como um filme que causa ataques epiléticos, colorido, brilhante, exagerado e artificial. Mesmo aqueles que acabamos gostando como Effie e a equipe de preparação exibem essa característica de alienação, todos realmente ADORAM os jogos e não entendem a devastação que os mesmos causam nos distritos, são a epítome do telespectador não-pensante. Com exceção de Cinna (o mais consciente e complexo deles).
O Filme: Acertos, muitos deles
Com o diretor Gary Ross e a própria autora como roteirista (revisão de Billy Ray) a expectativa em torno do filme era não só alta como também positiva, afinal é muito difícil o autor destruir sua obra no cinema, mas a pulga estava lá, atrás da minha orelha, me mordendo e sussurrando "E se for ruim? E se mesmo com a autora isso vire um "Percy Jackson"?".
Mas não foi nada disso que aconteceu, o filme se mostrou tudo que se poderia querer e mais um pouco, o diretor soube aproveitar a história e cortou a gordura indesejada do "mimimi" pré-adolescente.
Com uma câmera inquieta que chegou a me dar um enjoo no início (com a opção de ser usada na mão nas cenas até a colheita), com closes ora sufocantes ora dolorosos, o diretor sambou na cara da sociedade e conseguiu não só captar o espírito da autora como elevá-lo a um patamar mais adulto. Utilizando recursos visuais e auditivos ele conseguiu passar pro cinema cenas que a personagem vivencia no livro como alucinações e até mesmo seu nervosismo diante das câmeras. Óbvio que nenhum desses recursos é novo, mas é sim um refresco e também uma baita coragem utilizá-los em filmes que tem como público-alvo o adolescente e adulto jovem (classificação PG-13 nos EUA), quando normalmente o que nos vem servido já é ruminado e com manual de instruções.
Assim a história às vezes aparece em bem feitos flashbacks, utiliza os recursos já citados para nos dar as sensações da protagonista e também, acerto e mérito total do diretor, explora uma parte que é citada, mas não explicitada no livro: os bastidores políticos e a máquina que controla os jogos.
Você sabe que tudo é controlado com mão de ferro pela capital, mas o livro ou só fala de passagem ou deixa subentendido, já o filme nos mostra o prazer de organizadores ao lançarem bestantes (bestantes esses que ficaram bem aquém do livro, mas ok) contra crianças numa arena ou revoltas que começam a nascer por atitudes da protagonista.
Você sabe que tudo é controlado com mão de ferro pela capital, mas o livro ou só fala de passagem ou deixa subentendido, já o filme nos mostra o prazer de organizadores ao lançarem bestantes (bestantes esses que ficaram bem aquém do livro, mas ok) contra crianças numa arena ou revoltas que começam a nascer por atitudes da protagonista.
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| Manda um beijinho Kat! |
O figurino também arrebenta e toda a exuberância bizarra da capital aparece nas roupas, tatuagens, cabelos, barbas e acessórios que os cidadãos da Capital ostentam. Só achei que os habitantes famintos do Distrito 12 estão muito gordinhos, no livro eles são mais sofridos.
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| Todo mundo feliz na foto antes de se matar. |
O elenco azeitado do filme ajuda muito (com exceção do quase inexpressivo Lenny Kravitz, que só porque foi um enfermeiro gostosinho e canastrão em "Preciosa" acha que sabe atuar, no papel de Cinna) com destaque para a indicada ao Oscar Jennifer Lawrence, que encarna a protagonista de forma impecável, superando expectativas e catapultando sua carreira numa construção consciente de personagens difíceis.
Tudo que se espera está lá, você odeia Cato e Clove , chora por Rue (os soluços eram ouvidos por todo o cinema) e se enche de carinho toda vez que Peeta aparece.
Tudo que se espera está lá, você odeia Cato e Clove , chora por Rue (os soluços eram ouvidos por todo o cinema) e se enche de carinho toda vez que Peeta aparece.
Além de todos esses prós o diretor consegue nos mostrar as mortes sem atenuar sua importância, mas também sem transformá-las num fetiche. Vemos sangue, corpos caindo, deformidades e criancinhas sendo esfaqueadas, alvejadas e machucadas, mas a opção é sempre pela exposição moderada, com closes em sangue espirrando, uma visualização embaçada ou distante da morte. Se por um lado isso ajudou o filme (que pegou uma classificação viável diminuindo a violência), por outro não diminuiu o peso que elas tem no filme, não infantilizou as mesmas, mostrando tudo através do pouco.
Filme VS Livro
Então quem ganha nessa parada?
Bom... Para mim deu EMPATE. "Putz!" você deve estar pensando. Tá... empate com leve vantagem pro filme.
O livro é mais, você sente mais. As mortes são descritas em detalhes (o que nos faz pensar que a Suzanne é um puta sádica também, porque o que se tem de tripas e sangue ao longo da trilogia não é brinquedo não), a fome, a revolta, a dor. Você chora mais doído com aquela cena... aquela das flores, da música cantada pros olhos fechando. Mas também você se emputece com todo o mimimi das dúvidas adolescentes sobre amor, beijo e tals. O livro poderia ter umas 30 ou 40 páginas a menos se isso saísse.
Já o filme nos entrega menos detalhes, muda uma coisa aqui e ali, corta alguns personagens e às vezes deixa quem é fã meio revoltado. Mas despindo-se dessa coisa de fã, ele consegue ser mais bem-sucedido ao nos mostrar de forma mais adulta a história, cortando os excessos e cobrindo toda a história de forma segura e eficiente.
No final os dois são um deleite para os amantes de coisas boas e novas, e é isso que realmente importa. Altamente recomendáveis, você DEVE possuir os livros e filmes na sua estante.
No final os dois são um deleite para os amantes de coisas boas e novas, e é isso que realmente importa. Altamente recomendáveis, você DEVE possuir os livros e filmes na sua estante.
Ufa! Que post grande! Cansei... agora só mais pra semana.
E você? Já leu ou viu JV?
Muah pra vocês!
Update by Belly: Bom, eu tinha dito que o figurino era ótimo, não é? Então deem só uma olhada no site oficial que só fala de moda: http://capitolcouture.pn/
Cheio de bom humor ele mescla estilistas reais com personagens fictícios, criando uma fusão bacana, colocando a Capital no centro da moda mundial e inserindo na mesma os ícones da moda que n´so vivenciamos. Olhem uma das "notícias" do site:
"Alexander McQueen wages full scale war on our fashion sensibilities with his latest armored bodysuit. Citizens of District 12 will recognize the dress print—it’s modeled after their native King snake."
Com fotos, perfis e figurinos o site é uma jogada de marketing inteligente.
Update by Belly: Bom, eu tinha dito que o figurino era ótimo, não é? Então deem só uma olhada no site oficial que só fala de moda: http://capitolcouture.pn/
Cheio de bom humor ele mescla estilistas reais com personagens fictícios, criando uma fusão bacana, colocando a Capital no centro da moda mundial e inserindo na mesma os ícones da moda que n´so vivenciamos. Olhem uma das "notícias" do site:
"Alexander McQueen wages full scale war on our fashion sensibilities with his latest armored bodysuit. Citizens of District 12 will recognize the dress print—it’s modeled after their native King snake."
Com fotos, perfis e figurinos o site é uma jogada de marketing inteligente.




Parabéns pelo ótimo post. O filme é fantástico assim como o livro.
ResponderExcluirBELLY, quando vejo, leio, sinto algo que tem valor, e que além disso, está apenas começando, fico sem palavras. è como estou me sentindo agora, orgulhosa, emocionada, tá ja sabia da sua inteligencia e sagacidade, mas estas qualidades materializadas nesta resenha, foi um presente inusitado nesta manhã morna de segunda. obrigada. (ah verei o filme, lerei o livro)
ResponderExcluirHey...
ResponderExcluirmto bom o texto!
nao li o livro ainda, so vi o filme...